KIDE: “Porto Grande era maior que Pirambu”

11-04-2011 16:22

Entrevista com um dos últimos remanescentes do povoado que já foi o maior núcleo populacional da Barra dos Coqueiros. “Era um povoado grande, chegando a possuir 4 a 5 casas de negócios, 2 padarias, maior que Pirambu”, lembra ele.

Por Claudomir Tavares [claudomir@tribunadapraia.net]

 

Eraclides Bispo da Cruz nasceu no dia 21 de abril de 1932, no então Distrito Porto Grande, na época pertencente a Aracaju, junto com Barra dos Coqueiros e mais quatro distritos daquela cidade, estando há 10 dias de comemorar 79 anos. Filho de Antônio Bispo da Cruz e de Giomar Silva Cruz, é casado com a professora Natália Luíza de Goes Cruz e pai de Rosimeire, Sérgio Sávio, Antônio Carlos, Luiz Fernando de Goes Cruz e Eraclides Bispo da Cruz Filho. Morou naquela comunidade até mudar para o nascente Canal de São Sebastião, e a quase cinqüenta anos fincou raízes no vizinho povoado Touro, todos eles pertencente a Barra dos Coqueiros desde 25 de novembro de 1953, quando a Ilha conquistou sua emancipação política da capital sergipana.

Kide,como é conhecido, é um dos últimos remanescentes dos mais antigos moradores do povoado que se constitui num dos marcos da ocupação humana na Ilha dos Coqueiros, atual município de Barra dos Coqueiros, terra do cacique Capuã, que segundo o professor Raimundo Zenzala, tem como um de seus descendentes o portograndense Antônio Bojota, pai de Francisco Benedito Tavares, o Chico Cardeirinha. Nessa entrevista concedida com absoluta exclusividade ao portal Tribuna da Praia, dentro das celebrações pelos sete anos ininterruptos na internet, ele conta com objetividade e detalhes aspectos das suas memórias naquele povoado que até meados do século passado ainda era uma das maiores referências na região.

TRIBUNA DA PRAIA – Que lembranças o senhor guarda do povoado Porto Grande?

Kide – Era um povoado grande, chegando a possuir 4 a 5 casas de negócios, 2 padarias, maior que Pirambu. Eu morava a uns 100 metros da igreja, a 150 metros do rio. Lembro da igreja velha, ainda alcancei as paredes, havia uma praça ali, onde atualmente está o cemitério de crianças. As pessoas adultas já se enterravam em Pirambu. As ruas eram de barro batido. Na frente da igreja haviam canteiros com espirradeiras. Era uma rua chamada “Rua do Cavalo Morto” (as pessoas não gostavam do nome, disse ele) e uma por trás da igreja. Eram as casas de José Luiz de Gois, pai de Natália, João de Artinho, chefão do povoado, delegado de polícia. Um bar (bodega) de Antônio Pacará, genro dele e pai de Elvira, o fundador do Canal. Atrás da igreja havia uma rua, com fundo para a rua principal, e de frente para o rio, onde as embarcações ficavam encostadas. As pessoas viajavam para Pirambu de barco e de carroça. Tinha uma escola, mas não me lembro do nome dela. Ouvia dizer que em 1914 (data confirmada por Edézio Góis Feitosa, filho de José Alves Feitosa, “Seu Juca”) que uma onda gigante (tsunami?) cobriu a Baixada, local conhecido hoje como Barreta.

“Indignados, eles jogaram uma praga que naquele povoado no futuro não sobraria pedra sobre pedra”

TRIBUNA – Me fale sobre a “praga dos padres”, que anunciaram o Fim dos Tempos em Porto Grande?

Kide – Eu tinha 12 anos (1944) e ouvia mãe e vô falar que na missa de Natal, enquanto uns padres de olhos azuis celebravam, que possuíam belos cavalos. Pessoas do Porto Grande pegaram os cavalos e foram tartarugar (pegar tartarugas e ovos na praia – prática comum até a criação do Projeto Tamar em 1980). Os padres vinham de carro até o Curral do Meio e de lá para o Porto Grande viam de cavalos. Indignados, eles jogaram uma praga que naquele povoado no futuro não sobraria pedra sobre pedra. Sabe-se lá se isso pegou o não, mas daquele povoado, só restou os restos da igrejinha como testemunha.

“Se cavar encontra os restos das casas, mas me lembro dos nomes de todos os moradores e onde ficavam suas casas”

TRIBUNA – De onde vinha o material para construção das casas?

Kide – Vinha de carro de boi, era um sacrifício danado. O comércio era apalavrado. Se cavar encontra os restos das casas, mas me lembro dos nomes de todos os moradores e onde ficavam suas casas - logo após a entrevista Kide nos levou ao sítio Porto Grande, identificando a localização exata de todas as casas dos moradores do povoado: Alzira, Nenem/Risalva, João de Gino, Abilo de Gino, Bilo, Ludugero, Aristides, José Luís de Góis, Otávio, Sinharinha, Adalgisa de Idelfonso, Teocinho, Chiquinho, Oliveira – Lardilau, Rosa, Marieta, Idalinha, Ernesto, Agenor, Simião, Bebé, Seu Pequeno, Antônio da Cruz (pai de Kide) – Tomazinho, Miliana, Antônio Bido, Lídia, Joãozinho dos Cardos, Chico Cardeirinha, Zebinha – Bar de Tonho Pacará, Zé de Aiá, Fulô, Salei, Pedro Maconha – João de Artinho, Casa de Tonho Pacaá, Genoino da Rede Grande, Abidon (seu tio), Loro Cotó, Dalie/Juca, Pedro Bola, José de Pedro Bola – Nenco, Jandira, Milicinha – entre outras. Se cavar encontra pedra das casas. O povo foi saindo, vendendo as casas e os compradores plantando coqueiros, e assim, acabando o povoado, restando apenas esta igrejinha se acabando (aponta ele as ruínas da Igreja de Bom Jesus dos Navegantes).

“A procissão de Bom Jesus dos Navegantes de Porto Grande era realizada em 06 de janeiro, no dia de Santos Reis”

TRIBUNA – A procissão de Bom Jesus dos Navegantes do Porto Grande é uma das mais antigas de Sergipe, existindo há mais de 150 anos, pelo menos. Que lembranças o senhor tem daquela festa?

Kide – Lembro que as melhores festas de Bom Jesus eram as da Barra, de Porto Grande e de Aguada (em Carmópolis). A de Porto Grande era realizada em 06 de janeiro, no dia de Santos Reis. Participavam de 12 a 14 embarcações a vela: saveiros, barcos, canoas.A festa começava em dezembro, com novenas, noites de festas, encerrando com a procissão. O prefeito de Aracaju, Godofredo Diniz foi levar pessoalmente o sino da igreja do Porto Grande – hoje ele está na igreja de São Sebastião, no povoado Canal. Para o carro do prefeito passar, a areia foi forrada de palha de coqueiro. Ele veio pela praia, da Barra até o Porto Grande.

TRIBUNA – Como eram estas festas?

Kide – Eram muito animadas, com fogos, comidas típicas, sanfona, clarinete, violão, uma orquestra. No Natal, uma vitrola tocava e era ouvida em todo o povoado. Além da festa de Bom Jesus, que ia do Natal até Santos Reis, eram muito boas as festas juninas, com novenas e noites de Santo Antônio, São João e São Pedro. Nos demais finais de semana, de sábado para domingo, vinham um Neném do São José, sanfoneiro e animava os que gostavam da brincadeira.

TRIBUNA – E como eram as brincadeiras de crianças?

Kide – Era a gente mesmo que fazia. Cortava o mangue, fazia carinho, pinhão, brincava na frente de casa. Eram famílias unidas, sem brigas, brincávamos no campo de futebol, ali na Raiz (próximo da foz do Rio Pomonga, com o Rio Japaratuba, onde hoje está o viveiro de Edézio). A iluminação das casas era feita com candeeiros de querosene, comprado nas vendas. As moedas eram de 10 tões, 500 réis, 1 cruzado.

“As pessoas saiam de barco a vela na sexta-feira e só retornavam na segunda-feira”

TRIBUNA – Como as pessoas comercializavam sés produtos, onde faziam suas compras?

Kide  – As pessoas plantavam nas ilhas, pescavam e iam vender seus produtos nas feiras de Carmópolis, no domingo, e na segunda em Rosário (do Catete). Vendiam caranguejo, ganhamum, peixe, peixe salgado e seco. Pescavam no Mangue da Cerca, Riacho da Zabé, lá prá dentro, pescavam moréia. Na feira de Aracaju, onde eram compradas as mercadorias para vender no povoado, as pessoas saiam de barco a vela na sexta-feira e só retornavam na segunda-feira. Quanta diferença de hoje, que vamos pela manhã e voltamos na manhã mesmo.

TRIBUNA – Como eram estas ilhas?

Kide – Eram ilhas de coqueiros, as pessoas plantavam coqueiros nas partes mais altas e chamavam de ilhas, como as de Norberto, da nossa família, ilha de Antônio Bojota (irmão de Chico Cardeirinha), dos Tocos do finado João de Artinho, ilha dos Cardos. Eram estas. Eram lá que as pessoas plantavam suas roças. Outros pescavam nos rios em frente e ao lado do Porto Grande, o rio Japaratuba, Pomonga e riachos ali próximos.

“Os saveiros eram embarcações a vela, muito usada no transporte de açúcar das usinas, do Jardim, Timbó, Cruz, Oiteirinhos, Pedras, levando até Aracaju”

TRIBUNA – O senhor lembra-se de alguns destes pescadores?

Kide – Sim! O finado Otávio, seus filhos Eliso, Piau, Adalberto, Doca. Eles moravam em Porto Grande. Hoje eles moram em Pirambu. A finada Mariá, a mãe deles, Santinha, irmã de Neném e seu Otávio, eram estes. As embarcações eram calafetadas por Pedro Maconha (só o nome, ele não fumava a eva, disse) e Pedro Cosme, que morava em uma casa ao lado da casa de Chico (Cardeirinha). No Porto Grande haviam de 3 a 5 embarcações que subiam para terra a partir de setembro para fazer obra. Haviam os saveiros, embarcações a vela, muito usada no transporte de açúcar das usinas, do Jardim, Timbó, Cruz, Oiteirinhos, Pedras, levando até Aracaju.

TRIBUNA – Como as pessoas faziam para se comunicar com o resto do mundo?

Kide – Através de carta, que as pessoas pegavam no correio da Barra. A Barra era pequena: terminava ali no riacho Guaxinim.

“Nós votava em Japaratuba. Ia de canoa até a Cabrita”

TRIBUNA – Sendo tão difícil o meio de transporte, como os eleitores de Porto Grande faziam para exercer o direito do voto?

Kide – Porto Grande e a Barra pertenciam a Aracaju. Eu nasci no povoado e me registrei em Aracaju (ele mostra o registro em que comprova esta informação). De barco era mais de um dia de viagem. Nós votava em Japaratuba. Ia de canoa até a Cabrita. Entre os políticos da época, havia o finado Nicó (da Pedra, atualmente pertencente ao senhor Juca Biriba, que reside em Pirambu), finado Zé Teles.

“Disputei as eleições nos anos 50, quando Moisés foi eleito prefeito. Era do lado de Leandro Macial, da UDN. Fiquei como suplente”

TRIBUNA – Qual a participação do cidadão Kide na política de Barra dos Coqueiros?

Kide – Eu era um homem muito quisto, tinha nome, todo mundo queria, conhecia as autoridades. Tinha simpatia: meu pai transportava os eleitores quando votavam em Japaratuba. Disputei as eleições nos anos 50, quando Moisés foi eleito prefeito. Era do lado de Leandro Macial, da UDN. Fiquei como suplente.

TRIBUNA – Mas eu o conheci do lado dos políticos do MDB, sendo um dos líderes comunitários da oposição no povoado Touro, assim como o saudoso Olavo no povoado Canal.

Kide – De fato estive do lado de Dr. Guido Azevedo, Tertuliano Azevedo, Zé Carlos Teixeira, ...

“O Touro foi fundado pela família Rodrigues”

TRIBUNA – Quando o senhor saiu do Porto Grande?

Kide – Quando eu saí do Porto Grande para morar no Canal, que estava começando, já era casado com Natália. Ela nasceu na Fazenda Jequitibá. Bem Vinda, sua avô e sua mãe nasceu no Curral do Meio. Quando vim morar no Canal já tinha Rosimeire e Sávio. Carlinhos, que tem 49 anos, estava na barriga (logo, em 1961). Depois vim morar no (povoado) Touro. Natália entrou no Estado, é professora aposentada. O Touro foi fundado pela família Rodrigues. João Grande é filho de Rodrigues e Beatriz (mãe de Tica) é neta da Rodrigues.

“Hoje há uma briga na justiça para tirar as terras dos filhos do Porto Grande e entregá-las a um grupo que chegou na Ilha do Rato em 1984”

TRIBUNA – Mas o senhor continua sendo um dos “donos” do Porto Grande?

Kide – Com o tempo adquiri através de compra as terras que possuo ali entre o Porto Grande, Elinha, Selma, Elze e a rodovia que liga Pirambu a Barra. Também possuo um sítio na Baixada. Com um tempo adquiri a malhada que pertenceu a Chico Cardeirinha. Atualmente as terras onde existiu o Porto Grande pertencem a mim, a Edézio, a Selma, a Elze e aquelas em frente a Pirambu era de Valdemir. Antes elas pertenceram a Nenem (esposo de Risalva), Elzápio, João Kelé e depois a Valdemir, que vendeu ao dono da Imperial. Hoje há uma briga na justiça para tirar as terras dos filhos do Porto Grande e entregá-las a um grupo que chegou na Ilha do Rato em 1984.

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