ORLANDO CRUZ: Resumo Auto-Biográfico

01-06-2011 10:30

A finalidade deste resumo auto-biográfico não é para “querer
aparecer”. Porém para mostrar que devemos, ante as dificuldades pelas
quais nos defrontamos neste mundo, ser sempre persistentes, e não
deixar nos abater na luta por uma vida melhor.

Às 13 horas do dia 12 de setembro do ano de l938 de Nosso Senhor Jesus
Cristo, numa tarde ensolarada do mês primaveril, nascia, nas mãos da
parteira Dona Maria, no povoado Porto Grande, próximo a Pirambu,
Sergipe, o subscritor destas linhas, Orlando Santana da Cruz. Batizado
em Pirambu, tendo como padrinho, segundo informações de minha mãe, o
Sr José Amaral. Registrado em 1943, no Cartório do 7º Ofício, Tabelião
e Oficial do Registro Civil João Alves Bezerra, Município de Aracaju,
2º Distrito de Aracaju, Certidão de Nascimento nº 13.162, Fls. 324 do
Livro A nº 19, tendo como avós paternos Francisco Bispo da Cruz
(conhecido por Chico Noberto) e Joana Rosa da Cruz (conhecida por Dona
Jovem ou Jovelina) e avós maternos Agenor Santana e Galantina Santana
(Dona Danta).
Naquele povoado (não lembro mais o nome da professora) e no Canal (com
a professora Dona Lourdes, esposa de um pescador) aprendi as primeiras
letras. Aos 14 anos concluí o curso Primário, na Escola Estadual José
Augusto Ferraz, no bairro Industrial, em Aracaju. Aos 18 terminei o
Industrial Básico, equivalente, na época, ao Ginásio (hoje Oitava
Série). No período da manhã, estudava-se profissão; à tarde,
conhecimentos gerais. Havia, na escola, diversas profissões. Optei
pelo curso de Eletrotécnico, na Escola Industrial de Aracaju, situada
na rua Lagarto. Meu sonho era concluir uma Faculdade. Estudei ainda,
com muito esforço, o Primeiro Ano Colegial, no Ateneu novo, situado no
final da Rua da Frente. Mas, por problemas de saúde e financeiro, tive
que interromper. Fui isento definitivamente do serviço do Exército,
porém apto para exercer qualquer atividade civil.
Mesmo assim, recebi honroso convite do Coronel Rui Santiago,
ex-Comandante do 28º Batalhão de Caçadores (reformado do Exército com
a patente de General), então Secretário de Segurança Pública e
Comandante da Polícia Militar do Estado, para fazer o Curso de
Aspirante da Polícia Militar de Sergipe, com perspectiva de galgar
altos postos. Fui contemplado, após excelente prova, com uma Bolsa de
Estudos (não lembro pra que finalidade). Fui chamado para trabalhar na
Petrobrás, após aprovado em concurso, mas, como já acima frisado, por
causa da saúde muito debilitada, tive de renunciar a tudo isso. Fui
baleiro (vendedor de doces) nos programas de auditório da Rádio
Liberdade. Trabalhei na Ótica Santana, na rua João Pessoa.
Durante minha estadia em Aracaju, por uns 7 anos, residi nas ruas Rio
Grande do Norte, Minas Gerais (antiga Av. Amarela), Maranhão (todas,
salvo engano, no bairro Joaquim Távora) e ainda nas ruas Amazonas,
Pernambuco e Paraíba (estas no Bairro Siqueira Campos). Me divertia
bastante, assistindo a filmes nos cinemas São Francisco, Tupi,
Guarani, Rex, Vitória, Vera Cruz, Rio Branco. Vendi muitas revistas
Manchete e O Cruzeiro no meio-fio da Rua João Pessoa, trabalhando
também com o famoso radialista Silva Lima, em sua Banca de Jornal, o
qual apresentava o Informativo Cinzano, numa emissora de rádio. Ouvia
também o Carrossel da Alegria, de Carlito Melo e o programa Calendário
do radialista Santos Mendonça..
Certa feita, quase me afogava, tentando atravessar a nado o rio que
separa Aracaju da Barra dos Coqueiros. Eu era ‘raquítico e com pouca
resistência. Tentei a travessia, saindo do Bairro Industrial,
juntamente, se não me engano, com João de Guiar, mais robusto, irmão
do Kide. No meio do percurso faltou-me a resistência e eu fiquei num
impasse se poderia ou não chegar à outra margem, pois não queria “dar
o braço a torcer”. Felizmente, a muito custo, voltei do caminho.
Naquela época, uma tragédia aconteceu: a professora de uma escola do
bairro Santo Antônio foi com 40 alunos, com idade de 12 a 15 anos,
fazer um piquinique e, em certo trecho do percurso, tiveram que
atravessar um rio numa canoa, a qual afundou, matando os 40 alunos,
inclusive um colega meu, chamado José, que morava na rua Piauí,
travessa da Minas Gerais, criado com a avó Dona Maria, que fazia
charutos para a sobrevivência de ambos. Fui ver os caixões, colocados
um ao lado do outro, sob as árvores, no bairro Manuel Preto, próximo
às fábricas de tecido. A professora conseguiu salvar-se, mas,
angustiada ante a situação, jogou-se na água e se afogou. O canoeiro
evadiu-se do local.
Por volta dos anos 59/60, vim, com minha mãe e alguns irmãos, para
Itapema/SP, onde já nos esperava meu pai. Estive muitos anos internado
em hospitais (em Aracaju, Santos e Recife) para tratamento da saúde:
problemas neurológicos, hepático e pulmonar. Submeti-me a diversos
tratamentos. Resido em Itapema há uns 50 anos, com pequenas
interrupções em Salvador e Recife, onde uma falsa enfermeira, em
fevereiro de 1970, contaminou-me com uma seringa infectada com o vírus
da hepatite. Ia assistir ao Carnaval, acabei 40 dias internado no
Hospital Portuguesa do Recife. Não fosse a acuidade visual de minha
mãe e eu teria sucumbido, pois eu nem sabia que estava doente, e com a
pele do corpo toda amarela.
E nem desconfiei quando corri atrás de dois marmanjos para impedir que
eles afogassem, de perversidade, em um córrego próximo, um gatinho que
encontraram no meio de um campo de futebol, e eles, após soltarem o
animal, começaram a chamar-me de amarelo! amarelo! apesar de sempre
ter sido corado. Permaneci 28 anos sem emprego fixo e sem estudar aqui
em Vicente de Carvalho (Itapema), vivendo tão somente de “bicos” em
oficinas de amigos, consertando rádio e televisão. Em 1985, aos 47
anos, “pensando no futuro”, comecei a trabalhar numa escola estadual,
por concurso, na função de Inspetor de Alunos.
Incentivado por um amigo da minha idade, e pelo vice-diretor da escola
onde eu trabalhava (EEPSG Prof. José Cavariani), em Vicente de
Carvalho, estudei nela até o segundo ano do curso Colegial (área de
Humanas). Trabalhava num período e estudava em outro. Enciumado de uma
colega, pela qual tinha muita afinidade, mudei-me para trabalhar na
EEPSG Waldemar da Silva Rigoto e, a contra-gosto da diretora da
primeira escola, fui estudar o terceiro ano na EEPSG Profa. Raquel de
Castro (sita na sede do município – Guarujá), na área de Exatas, muito
mais difícil e mais puxado! principalmente as matérias de Física,
Química e Matemática. “Tive que pegar o bonde andando”, pois os alunos
(adolescentes) desta classe, “filhinhos de papai”, “mentes frescas”
vinham num pique nessas matérias desde o primeiro ano, e estavam se
preparando para o Vestibular da Universidade de São Paulo (USP), para
os ramos de Medicina, Engenharia, Química, Biologia e outros, e faziam
mais Cursinhos. Finalmente, aos 50 anos, cheguei ao final do curso,
embora a dIretora antes mencionada duvidasse que eu o faria, pois
alunos que tentaram esse feito jamais o conseguiram, disse ela.
Já que eu estava na fogueira, resolvi prestar vestibular para Direito,
na UniSantos. Infelizmente, por não seguir os conselhos de um
experiente professor, fui reprovado. Pra não perder a viagem,
bacharelei-me em Letras na Faculdade Dom Domênico, em Guarujá, aos 54
anos, fazendo, ainda um ano de especialização (lato sensu). Na
primeira aula de Psicologia, a professora falou, ironicamente, que
“geralmente, os estudantes de Letras, em sua maioria, são os
mal-sucedidos no vestibular de Direito”. Quanto a mim, acertou em
cheio! Na Delegacia de Ensino local, participei da escolha de aulas,
sendo contemplado com algumas aulas de Inglês. Providenciei a
documentação e fiz exame de saúde. Apesar de haver recebido do MEC o
registro de professor, jamais lecionei, pois, quando eu me preparava
para me apresentar na Escola em que ia lecionar, fui chamado para o
Poder Judiciário, pois havia prestado concurso para esse Órgão, tendo
sido aprovado.
Trabalhei 16 anos no Judiciário, e aposentei-me aos 70. Jamais “furei”
uma Greve, durante os 23 anos como servidor público. Após me
aposentar, fiz o curso de Técnico em Transações Imobiliárias, e recebi
a carteira do Creci (Conselho Regional dos Corretores de Imóveis).
Apesar de reconhecer não ter dom para política (sou um péssimo orador!
e não sei enganar nem mentir!), militei vários anos no Partido dos
Trabalhadores PT de Guarujá, participando do Diretório, como
Secretário. Desiludido com o comportamento da maioria dos
companheiros, que pregavam uma coisa e faziam outra, me desfiliei para
sempre do partido, pois “uma andorinha só não faz verão”. Antes
faziam trabalho de conscientização nas periferias. Com o andar dos
tempos, a coisa debandou para os conchavos de gabinetes,
distanciando-se dos mais humildes, afora os “paraquedistas”
interesseiros ou “cobras mandadas”, que vinham para desarticular tudo.
Fui várias vezes diretor de Sociedade Amigos de Bairro e participante
de Conselho Municipal de Associação de Moradores. Participei na Afuse
(Associação dos Funcionários e Servidores da Educação) e na AOJESP
(Associação dos Oficiais de Justiça do Estado de São Paulo). Duas
vezes fui candidato a vereador, pelo PT, em Guarujá, fazendo minha
campanha à minhas custas, sem atrelamento. Na primeira paguei um
carimbo na gráfica e comprei uma resma de papel carimbei 4.000
torpedos e os distribuí entre alguns amigos. Claro que jamais me
elegeria! Tive 141. votos. Só ganhei experiência, pois concluí que,
para um candidato ser melhor sucedido, tem que ser conhecido, ter
trabalho na comunidade, equipe de trabalho na campanha, ter material,
dinheiro, ter “padrinho” forte, ser divulgado. “A propagando é a
alma do negócio”, diz o ditado..
Nada disso eu tinha, exceto, fidelidade e participação. Enquanto isso,
os que pregavam a correção e se julgavam donos do Partido e das
teorias marxistas faziam, por trás dos bastidores, conchavos com
fortes políticos adversários do PT para bancarem sua campanha. Além do
mais, a miséria era tanta, que o eleitor se vendia. A barriga vazia
não espera por ideologia. Bastava uma cesta básica e pronto. Numa
dessas eleições, muitos eleitores, descontentes com certo candidato,
diziam me apoiar. Mas bastou este conseguir, através de um deputado
empresário, colocar água encanada em todo morro onde moravam, para
debandarem para o lado dele. Eu já havia advertido um parente que me
ajudava do que poderia acontecer.
Obs.: Este “resumo” é mais a título de informações “confidenciais”,
Acho que não se deve encher o portal com assuntos pessoais ou coisas
que talvez não sirvam para nada. Mas, se o Ilustre Professor achar que
tem algo que se possa aproveitar que o faça. Enfim, minha vida é um
livro aberto!

Sds.

Vicente de Carvalho, o1 de junho de 2011-06-01
Orlando Cruz

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