Memória demolida na cidade de Propriá

23-05-2011 21:51

Casarão demolido depõe contra a política cultural da cidade ribeirinha

Por Claudomir Tavares * | claudomir21@bol.com.br

São Cristóvão e Laranjeiras são os maiores exemplares em patrimônio cultural em sua modalidade arquitetônica em Sergipe, mas não são os únicos. No Baixo São Francisco, temos do lado alagoano temos Penedo, no litoral sul daquele estado e Piranhas, no sertão como cidades cujo sítio histórico fora tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, pelo conjunto de seu casario, sobrados, igrejas, ruas, exemplares que remontam o Brasil Colonial.

Do lado sergipano, as cidades de Propriá e Neópolis são dois dos mais representativos exemplos de conjuntos coloniais cuja importância destacam as cidades perante as outras da região. Estão aqui casario, igrejas, ruas estreitas no estilo pé-de-moleque, fábricas, itens que nos reportam a um passado áureo destas duas cidades. O sítio histórico de Propriá reúne monumentos que pela sua importância, a elevou a condição de Princesinha do São Francisco.

Como professor de Cultura Sergipana do Colégio Estadual Joana de Freitas Barbosa, tivemos a honra de representar em 2005 a cidade ribeirinha no I Encontro Nacional de Educação Patrimonial, realizado no Convento São Francisco, na Praça que cinco anos depois era elevada a Patrimônio da Humanidade – vivemos e revivemos este momento cujo significado deveria ser vir de alerta e sensibilidade para gestores municipais que deveriam instituir uma política cultural a partir de uma gestão participativa.

Naquele encontro flagramos duas participantes do encontro dialogando, quando uma delas declarou: “eu participo de encontros, seminários, congressos de educação patrimonial e confesso que no início eu era insistente, vivei assistente e hoje sou desistente, pela ineficiência os resultados em seu sentido prático”. Aquilo ficou gravado em minha mente e comecei a tentar associar o descontentamento das educadoras patrimoniais e o tempo revelou os motivos da desilusão.

Enquanto existem políticas de preservação, processo avançado de tombamento do patrimônio cultural no todo ou em parte, este caminha a passos de tartaruga ou inexiste em cidades como Propriá e Neópolis, as margens do São Francisco, quiçá em outros municípios sergipanos que tem monumentos dignos de serem separados e iniciados processos de conservação com o necessário tombamento. É preciso sensibilizar os nossos governantes, para esta necessidade que deve ser premente.

Aqui em Propriá, remando na contra-mão da História, não existe política cultural, ações voltadas para a preservação do nosso patrimônio cultural, que segundo o mestre Hugues de Vaine Bohan “compreendem os elementos da natureza, os artefatos e o conhecimento humano” (BOHAN, 1987). Os exemplos são inúmeros e que nos surpreendem pela velocidade com que eles ocorrem: a questão cultural não é vista de forma transversal e muito vale a próxima eleição que inserir atitudes na História.

Vamos destacar dois: em 2005 o ex-prefeito Luciano Nascimento (DEM) demoliu o Relógio que orientava quem circulava na Feira Livre de Propriá, para segundo ele colocar um moderno relógio digital – perdemos a referência e o novo relógio não fora colocado no local. Recentemente fora demolido o Casarão que se localizada na esquina da Rua Lopes Trovão com o Beco do Taboão. Símbolo da história de Propriá, referência da arquitetura da virada do século XIX para o XX, restam apenas às fotografias.

Alguns protestos merecem registros: na Câmara de Vereadores, a vereadora Rozélia da Ponte (PTC) e Aelson Publicidade reagiram indignados, contra o que classificaram de “demolição da nossa história e da nossa memória”. Estudantes do Colégio Estadual Joana de Freitas Barbosa, que participaram de aulas Educação Patrimonial nos finais de cada ano lembram daquelas aulas e lamentam a demolição de um de nossos objetos de estudo. “É lamentável que isso tenha acontecido”, indigna-se Priscila Santos.

Não venham os argumentos insustentáveis defender o indefensável, afirmando que se o prédio não fosse demolido, vivia abaixo com a ação do tempo, tamanho o seu precário estado de conservação. Se a prefeitura de Propriá tivesse um plano de conservação teria evitado que ele chegasse a este nível e se esta não se policiar e a própria população não reagir, seremos uma espécie de “Atlântida” terrestre – inundada pelas águas da falta de compromisso que tem se acentuado na cidade de Propriá.

Concordamos que o prefeito Paulo Britto (PT) é um cidadão zeloso quando nos referimos a sua condição de gestor ético, apesar de inúmeras denúncias que surgem todas as semanas, a maioria de forma apócrifa, logo, não merecendo crédito. No outro extremo, é um gestor negligente no que diz respeito a conservação do patrimônio cultural de nossa cidade (aí incluindo os elementos do meio ambiente e os artefatos), o que tem se acentuado pela ausência do prefeito, delegando poderes de forma aleatória.

Tememos que não haja mais tempo para a atual administração fazer alguma coisa em prol do nosso patrimônio cultural, mas de nossa parte não devemos baixar a guarda e persistir na cobrança, na vigilância diante de tanta falta de compromisso, prevaricação cultural, de falta de fazer e de saber fazer pela nossa história, pela nossa memória, tão desprestigiada como o fim do Encontro Cultural de Propriá (que deverá retornar em 2013, quando for empossado um novo prefeito).

Referências Bibliográficas:

BOHAN, Hugues de Vaine. O Tempo Social. Rio de Janeiro: Eça Editora, 1987

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Por Claudomir Tavares (42) – Professor concursado da rede pública municipal em Pirambu, estadual em Propriá e do Pré-Universitário (SEED). Licenciado em História, com aperfeiçoamento e especialização em Gestão de Recursos Hídricos (todos pela UFS), especialização em Metodologia do Ensino Superior (Faculdade São Luiz de França) e Mestrando em Gestão Ambiental (Universidad San Carlos). Críticas e sugestões são valiosas: claudomir21@bol.com.br (79) 9917.0510!

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