HISTÓRIA: “Recordações do Porto Grande” (Orlando Cruz)

19-04-2011 14:02

Nasci em Porto Grande, próximo a Pirambu, estado de Sergipe, em 12 de setembro de 1938, e ali residi, aproximadamente, até os 12 anos de idade

Por Orlando Santana da Cruz

Gostei da entrevista do Kide ao portal Tribuna da Praia. Retratou muito bem o Porto Grande daquela minha época. Pouca coisa resta-me a acrescentar relacionado àquele povoado, e, se eu me enganar (faz mais de 50 anos!) peço desculpas, e que alguém me corrija.

Eu me chamo Orlando Santana da Cruz (foto), nasci em Porto Grande, próximo a Pirambu, estado de Sergipe, em 12 de setembro de 1938, e ali residi, aproximadamente, até os 12 anos de idade, quando me mudei para Aracaju; filho de Abílio Bispo da Cruz (Bilo) e Guiomar Santana da Cruz (Guiar de Bilo), sendo avós paternos Francisco Norberto e Joventina (Dona Jovem), e avós maternos Agenor Santana (Pai Agenor -assim eu o chamava) e Galantina (conhecida por Dona Danta – moravam no povoado). Esta teve vários filhos, entre eles minha mãe Guiomar, acima mencionada, filha mais velha, além de Risalva (mulher de Neném; este, ao que parece, tinha um sítio no Zé do Lopes ou Capivaras, entre Pirambu e Porto Grande). Lúcia, Elita, Elinete, João (Domi), Juarez, Neli, Marielze, Gilberto (Véio) José (Zé de Danta), espalhados pelo povoado, por Pirambu e pelo Cabeço (colônia de pescadores); eram meus tios, filhos de Galantina, corrigido depois para “Eglantina”, a qual encontra-se enterrada no cemitério daqui, Distrito de Vicente de Carvalho, antigo Itapema, município de Guarujá.

Viajei, com meu pai, na canoa “Iracema” - à vela, com capacidade para transportar 460 sacos de açúcar de 60 Kg cada - dos engenhos mencionados pelo Kide para os trapiches de Aracaju e Barra dos Coqueiros. Viajávamos, por rios, para Laranjeiras, Riachuelo, Maruim, Santo Amaro das Brotas, São Cristóvão, Mosqueiro, Oiterinhos. Quando as embarcações retornavam, eram atracadas na margem do rio ou porto da Levada, distante alguns minutos do povoado. Certa noite, a tripulação atracou 1 hora da madrugada, deixando-me sozinho na embarcação, e foi farrear no Canal.

Quando acordei às 2 horas, não vendo ninguém por perto, danei-me a correr para casa. Quanto mais eu corria mais o medo aumentava. Havia um riacho e nele um passadiço, o medo era tanto que atravessei o riacho, maré seca, pelo atoleiro. Comecei a ouvir o crepitar de galhos secos se quebrando. Pensei que era o Lobisomem. Quanto mais eu corria mais me afundava na lama (coisa de criança supersticiosa), até que cheguei em casa.

 Lembro-me, também, que fazíamos, à noite, rede de pesca na casa de Chico Cardeirinha, juntamente com seus filhos Heribaldo e Alonso. A casa dos pais destes situava-se próximo ao morro. No extremo oposto, situava-se a casa dos pais do Kide.  Lembro-me do Sr. Pedro Isaac, que vinha, de outro povoado, nos domingos, a cavalo, vender doces: queijadas, bolachinhas, manoês. Lembro-me de Lindaura, que pescava aratus nas gaiteiras dos mangues.

Certa vez, enquanto ela pescava, uma enorme cobra entrou em sua casa, próxima ao rio, quase abocanhando uma de suas crianças, que mal engatinhava. Ao ouvirem os gritos, alguns moradores da vizinhança socorreram-nos, matando o réptil a pauladas. Havia muita superstição no lugarejo, tais como fogo-corredor, lobisomem, mula-sem-cabeça e outros.

Existia, entre Porto Grande e Pirambu, um cajueiro que se dizia mal-ssombrado. Todo meio-dia tilintava uma sineta. Certo dia, eu e mais alguns amigos de infância fomos, próximo das 11 horas, procurar caju naquele cajueiro. Estando eu, por volta do meio-dia, no último galho, olhei ao meu redor, e não vi mais ninguém. Só ouvi os últimos sons amortecidos de voz já afastada, que dizia: “olha a sineta!” Pulei do galho e saí correndo com tanto medo que o pus do pé estourou e eu nem dor senti.

Recordo-me das festas de fim de ano. Eu me acordava cedo para ver se achava algumas moedas embaixo das mesas de jogos de roletas. Lembro-me do Pedro Maconha, sacristão da igreja, de pele corada, cuja esposa era Anália, também avermelhada. Não esqueci Sá Indalina (a forma de tratamento das mulheres idosas era “Sá”– talvez fosse um abreviativo de Senhora), que torrava café para os moradores e saveiristas; toda tarde ouvia-se, pausadamente, o bater do pilão: Tum... Tum... Tum; ela tinha um filho, já bem adulto, chamado Dunga.

Sá Licinha (costureira), não sei se esta era a Milicinha à qual Eraclides se reporta. Recordo, com saudades, dos banhos nas lagoas de águas cristalinas, próximas ao mar, formadas pelas chuvas. Heribaldo fazia uns carrinhos de madeira (será que ele se lembra?), de 02 rodas – tipo pequena galinhota, e neles arrastava alternativamente um ou outro companheiro adolescente até à beira do mar. Seguia as procissões, companhada por zabumbas, pífanos (gaitas), feitos de pedaços de taquara, com furos ao longo da superfície. Tudo era alegria.

Deslocava-me de Porto Grande ora para Canal ora para Pirambu, a fim de comprar leite para os meus irmãos pequenos. Seu Ireno e Bilo Cego é que faziam, em canoa a remo, a travessia de pessoas e animais de Pirambu para o lado de Porto Grande; muitos vinham com cavalos carregados de camarão e peixe salgados, atravessavam o rio em direção a Aracaju e vice-versa.

Descarregavam as malas ou cangalhas na canoa, e iam segurando as rédeas dos animais, enquanto estes nadavam ao lado da embarcação. Muitas das pessoas que o Kide cita em sua entrevista eram meus parentes (aliás, ali, ao que parece, pelo sobrenome, tudo era família). Bilo era meu pai (faleceu em Salvador aos 86 anos), Risalva, mulher de Neném (falecidos), era minha tia, Ernesto (tio Dedé), Lardilau, Zebinha (casado com Iraci?), Salei (pai de Lardilau?) também eram familiares. Havia um riacho, atrás de minha “casa”, onde pescava “moréia”. Este me faz lembrar uns versos do poeta Manoel Bandeira:

VELHA CHÁCARA
A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.
Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)
A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...
- Mas o menino ainda existe.

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Nota da Redação: Este depoimento de “Seu” Orlando é um documento de tamanha grandeza e será incorporado ao acervo mais valioso deste portal, preservando os créditos e salvaguardado para as futuras gerações. Com ele abrimos uma Coluna que terá como titular o portograndense Orlando Santana da Cruz.

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