Bem-te-vi de olho no Itapema (do Porto Grande para o Mundo)

12-04-2011 10:49

Orlando Santana da Cruz, nosso poeta Bem-te-vi (denominação também de outros cordelistas afamados), tem uma estampa emblemática própria das figuras sergipanas míticas da minha infância, que por vezes me deparo nas ruas de Itapema.

O cabelo grisalho colado ao crânio, os óculos de aros retangulares, hastes finas. Completa o figurino a calça social e camisa de botões com mangas curtas. Talvez por gosto, ele dispense o chapéu de feltro escuro. Seus modos conferem-lhe uma distinção sobrenatural.

Nordestino do litoral sergipano, mais especificamente de Porto Grande (povoado de poucos habitantes entre o rio e o mar). Lá as moradas eram modestos casébres de pau-a-pique cobertos com palha dos muitos coqueiros. Nas cercanias mangues repletos de Aratus e pomares naturais de árvores frutíferas, típicas da região. Festejavam o Reisado, o Cacumbi e outras expressões do Folclore local. Vivia-se da pesca, caça e da roça... Aliás nem existe mais, confessa entristecido o poeta num causo de sua infância, foi tragado pelas areias trazidas das dunas existentes nas proximidades.

"(...)restando do povoado apenas a saudade... Ali naquela humilde aldeia nasci e me criei até os doze anos..."

Não é dado à muitas palavras, Seo Orlando. Mas versador de cordel como poucos [no detalhe, manuscrito do poeta Bem-te-vi]. Trouxe no seu coração aquilo que via nas feiras daqueles rincões. E foi no grupo de estudos 'Movimento de Cordel' (1997), reunido na Casa de Cultura 'Jaime Cubero' - ITAPEMA/SP, que ele já prosa glosava:

"Agora que já peguei

Do cordel o fio da meada..." - Nunca mais parou de escrever. Olhar crítico sobre os desmantelos da cidade. Produzindo cordéis "de época ou ocasião", um jornalismo popular a esclarecer o povo.

"Quando pagamos passagem

 No preço está embutido

 Colocação de mais ônibus

 Pro povo ser atendido,

 Mas o que vemos deveras

 É nos pontos muita espera

 E o povo espremido."

Repórter da população sem deixar de ser poeta. Contundente como as vezes não é o jornal oficial, refletindo a realidade de maneira objetiva.

"Em Vicente de Carvalho

 Tem que dirigir com arte

 Há buraco em toda parte

 Está faltando cascalho

 E quem vai para o trabalho

 Da estrada é dependente

 E o carro se ressente

 Ao passar pela lombada

 Rua mal sinalizada

 Pode causar acidente..."

Bem-te-vi, poeta cultivador da literatura popular em versos, divulga esporadicamente seus cordéis através de publicações alternativas, ou envia aos amigos. Toda vida preocupado com os destinos do município e fustigando a classe política.

"Se realmente existisse

 Um pouco de sinceridade

 Ao invés de hipocrisia

 Egoísmo e falsidade

 Esta cidade seria

 Quem sabe talvez um dia

 Um paraíso de verdade..."

Fonte: almanarkitapema.blogspot.com/

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