ANTÔNIA AMOROSA: Adeus meu forró!

07-06-2011 16:47

Meu forró querido queria ter forças para me iludir, me enganar, mas eu não consigo. Queria encontrar soldados dispostos a elaborarem leis de manutenção das nossas raízes, como fazem os pernambucanos no carnaval, que não deixam mexerem no frevo, e não permite que os invasores entrem no seu espaço

Por Antônia Amorosa *

As roupas de chita saiam do armário pulando de alegria para os corpos das meninas; e os meninos dançavam com alegria, sem preocupação com concursos. Tudo nascia espontâneo. Não precisava de valores expressivos para ouvir o choro de uma sanfona, o grito de um triângulo, e o rosnado sonoro de uma zabumba. A “goela”, de tanto prazer, suportava oito horas de forró como se fosse lua de mel. O milho já cozinhava na panela, a macaxeira também estava no forno, o amendoim “tapeava” os convidados, a noiva já estava arrumada para o casamento forçado, as bandeirolas ocupavam o espaço nas alturas, o “peido de véio” saltava das mãos felizes das crianças, a maquiagem marcava os pontinhos negros nos rostos rosados das donzelas, e a fogueira queimava na porta, a espera dos próximos compadres.

Mas, o cenário mudou meu forró! Roubaram a sua essência, e hoje os ritmos foram trocados. O xote é lambada, o baião é vaneirão, o xaxado é carimbó, e a marcha é um forró elétrico que lembra mais o axé da Bahia. Trocaram tudo, meu forró! Deixou-lhe exposta, nua na praça, com uma roupa que não é sua, uma dança que não é sua, uma história que não é sua. O comércio escuso lhe transformou num subproduto que é consumido compulsivamente pelas mentes que nunca estudaram a música brasileira. Faltaram com respeito, meu forró, com as lutas empreendidas por artistas como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Carmélia Alves, Anastácia, Marinêz, João do Valle, o próprio Dominguinhos que resiste na elegância que lhe é peculiar. Ainda restam alguns defensores fiéis a sua essência como Flávio José, Alcymar Monteiro, Jorge de Altinho, Adelmário Coelho, Clemilda, mas até quando?

As rádios lhe tocam quando a Cidade dorme, e só os caminhoneiros, taxistas e os vigias podem lhe ouvir. No horário nobre, só a cópia da cópia de uma cópia sem cópia, é que de fato é tocada, porque estamos diante de gerações sem formação cultural, sem conteúdo, sem qualidade, sem bom gosto. E você, meu forró que, como ninguém, contou e cantou a história do povo nordestino. Agora, a nossa história é contada com os ritmos do norte, e não do nordeste. Fomos engolidos mais uma vez pela cultura alheia.

Durante 25 anos lutei com as forças que me cabiam, para lhe defender. Ainda o farei um pouco este ano, cantarei minhas últimas canções preferidas nos shows de 2010, mas no ano que vem meu forró, decidi não atirar mais “pérolas aos porcos”. Uns diriam que eu deveria permanecer defendendo você no campo de batalha, mas quem conhece uma guerra sabe do que explanarei: o general foi morto, o tenente foi abatido, metade dos soldados fugiu, e só sobraram os abnegados e apaixonados pelo idealismo. Mas, o exército do outro lado tem muitos soldados e munição suficiente para neutralizar nossa luta. O soldado sábio, para não morrer, precisa recuar. É o que farei meu forró!

Não suporto mais assistir em silêncio o descaso com os forrozeiros mais autênticos; não suporto mais ouvir as rádios que ganham concessão para prestigiar os valores culturais das regiões onde operam, venderem seus espaços por “jabás” que destroem dia após dia, a nossa essência musical. Sem falar em alguns que cantam parecendo que estão com diarréia. Meus ouvidos não agüentam... só os cachaceiros podem suportar tudo isso, porque os bêbados não tem poder de sínteses nas horas de farra.

Meu forró querido queria ter forças para me iludir, me enganar, mas eu não consigo. Queria encontrar soldados dispostos a elaborarem leis de manutenção das nossas raízes, como fazem os pernambucanos no carnaval, que não deixam mexerem no frevo, e não permite que os invasores entrem no seu espaço. Queria só uma meia dúzia de bons soldados valentes para iniciar uma luta que poderia levar tempo. Mas, confesso meu forró: estou cansada.

Despeço-me de você, ainda este ano, na certeza que lhe dei o melhor de mim. Cantei as canções mais primorosas da sua história, levei a alegria que só sua essência pode dar ao seu povo, não troquei os figurinos estampados e redondos, por calcinhas que mostrassem a cor do meu ovário, porque o palco foi feito para os artistas, e não para a prostituição.

Despeço-me de você, ainda este ano, na consciência tranqüila que dediquei 25 anos de minha vida, para você! Gosto de ganhar dinheiro como todo mundo, mas não da forma como este dinheiro tem sido oferecido nos últimos anos. Gosto de subir em um palco dignamente, e cumprir meu papel de artista, mas não posso mais conviver com um cenário que envergonha a evolução do forró. Com dinheiro e globalização, até defunto canta na Grécia para as catacumbas. Mas, quem poderá lhe devolver o que é seu, meu forró? Só o tempo, a história, a pesquisa, a fundamentação rítmica do seu papel, a argumentação do seu primor cultural, a identificação original da sua gente mais simples.

Quanto a mim, sairei do campo de batalha, e não levarei a taça da derrota, mas da dignidade de quem não se vendeu aos ritmos que a descaracteriza; saio do campo de batalha porque não acredito mais nas ações das autoridades em manter nossos valores; não acredito mais na educação cultural que deveria começar nas escolas; não acredito mais no compromisso do rádio com a nossa cultura mais original.

Sairei de cabeça erguida, e quando sentir saudades de cantar você, meu amado forró, acenderei uma fogueira em frente a casa onde nasci, chamarei um sanfoneiro, tocarei meu violão, e cantarei: “Quando o verde dos teus zóio\ se espaiá na plantação\ eu te asseguro\ não chore não, viu\ que eu vortarei viu\ meu coração...” No meu caso, meu forró, partirei sem garantia que irei voltar um dia.

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* Cantora, compositora, jornalista.

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