ANA LÚCIA: "A consolidação da democracia exige autonomia"

05-06-2011 00:32

No ano de 1984, o magistério foi a categoria que primeiro fez greve depois do Golpe Militar. Nós passamos 25 anos sendo reprimidos e por qualquer manifestação éramos presos, torturados e dezenas e centenas de companheiros foram mortos. Neste ano tivemos dois dias de greve porque o então governador João Alves retirou nossos 20% de regência. Lutamos e fizemos várias marchas aqui e em Brasília com 30, 40, 50 mil professores. E assim conseguimos avanços na Constituição Federal.

Em 1989 nossa principal conquista foi o direito de sindicalização, pois antes fazíamos greves através das associações que eram extremamente viciadas, tinham o costume de fazer boletins e passar telegramas agradecendo os reajustes salariais do Governo da época. Neste ano, é verdade, passamos 15 dias de greve na luta ‘Não Pise no Meu Piso'. O palácio Olímpio Campos estava cheio de abaixo-assinados de professores e estudantes. No dia da votação do veto do então governador Valadares, a Assembleia estava cheia de policiais, parecia uma praça de guerra. Havia polícia civil, polícia militar e bombeiros. Tudo isto para os professores, que tinham apenas nas mãos uma carta do deputado Nicodemos Falcão dizendo que ia fazer tudo pela educação. Esta era a ‘arma' que nós tínhamos.

Em 1990 enfrentamos a pior greve do estado de Sergipe, foram 56 dias sem salário. E tinha um secretário de Trabalho da época que abriu as negociações porque em uma passeata no Bugio a companheira Mariza morreu de derrame hemorrágico. Perdemos uma militante. Em seu enterro, tinha mais de 5 mil pessoas, e foi no cemitério que eu tive notícia de que no Palácio de Veraneio haveria uma reunião na manhã seguinte com professores escolhidos pela direção para desmoralizar as negociações que a comissão de professores havia marcado para a tarde. A partir de 6 horas da manhã estávamos todos lá no Palácio. Foi tenso? Foi. Mas vencemos. Nesta ocasião conseguimos passar de 30% de regência para 50%. Mas na votação do ‘Não Pise no meu Piso' nós enfrentamos pela primeira vez pelotão de choque e gás lacrimogêneo. Muitos foram para o hospital. Nós tínhamos uma greve unificada. Médicos do Hospital Cirurgia atenderam umas 14 pessoas.

Essa é a história dos funcionários públicos. Nosso governo tem contradições neste sentido? Tem. Tem tido limites? Tem. E o magistério principalmente, pois foi o primeiro a ir às ruas e enfrentar a redemocratização deste país aqui no estado de Sergipe, que é pequeno e todas as pessoas se conhecem. Então as relações são complicadíssimas e influenciam no Governo.

Nós passamos 23 anos lutando pela regulamentação do Piso Salarial. Neste período estava na Constituição, na Lei de Diretrizes e Bases, na Lei do Fundeb, que nós tínhamos direito ao Piso. Mas é em 2008 que o projeto vai ser encaminhado à Câmara, onde conquistamos uma concepção não só de Piso, mas de Carreira, quando os professores tiveram um grande defensor da causa, o nosso deputado federal Iran Barbosa, que disputou com Paulo Renato cada emenda, e saiu vitorioso.

Ali estava claro que o presidente Lula encaminhou dois pisos: um para nível médio e outro para o superior. Lá parlamentares e Governo chegaram ao consenso de que a Carreira do Magistério é única. Portanto é preciso que o Governo entenda que a categoria do magistério é vitoriosa a partir de muito luta, de muito deboche, de muita agressão verbal, e não só verbal. Nós aqui fomos vítimas de muita agressão física também, porque aqui a repressão era pesada. Quantas greves nós fomos às ruas com o pelotão de choque e cães ao lado? Nunca mais tivemos greves assim.

A democracia avançou. Mas a consolidação da democracia exige autonomia, que nós possamos ser respeitados em nosso ponto de vista, e exige que as propostas dos setores mobilizados sejam avaliadas pelos governantes. Assim a democracia vai avançar, quando o serviço público for prioridade. Quando a educação, a saúde, a segurança pública, a habitação, a cultura, o lazer, a alimentação sejam considerados direitos fundamentais da pessoa humana.

Por Ana Lúcia, professora e deputada estadual pelo PT

Voltar